Cabística
Koikoiyama xinaki
Rei reiroo reireiroro koikoiyoma
Xina kiweita reireiroo reiriroo
Reahv He ã
Prólogo:
Anunciação
‘’ Fico nas nuvens...
...e sinto meu corpo em chamas!
A envolver-me até acabar em cinzas. ’’
Patrícia Raphael
Era um tormento para alguns, já para outros era um bálsamo, certas manhãs no mercado público. Ninguém sabia ao certo de onde vinha aquela criatura etérea, que caminha como se flutuasse e, exalava a flores. Certo mesmo, é que uma vez por semana a Romani vinha até ao mercado público, instalar uma pequena banca de ervas. Ervas que ninguém conhecia de fato, e que serviam para tudo. Pouca gente se atrevia a comprar qualquer coisa daquela mulher de pele alvíssima, olhos claros, roupas coloridas e de cabelos de tão louros reluziam ao sol. A única certeza era que uma vez por semana ela aparecia por aquelas paragens, deixando um rastro de olhares estupefatos e furtivos por onde passava.
Entre dedos apontados e conversas ao pé-de-ouvido, muita gente já não sabia quanto tempo a cigana invadia a vida interiorana da cidade. Dias... semanas...meses...anos, ela era um mistério fechado em si mesmo. Um mistério que poucos ousavam ou tentavam decifrar, entre idas e vindas do mercado público, entre gritos, entre cheiros insuportáveis, o vai e vem de mercadorias e mercadores.
Em meio a esse pequeno universo, a Romani destoava de tudo e de todos. Aquela figura delicada estava distante daquela gente rude e de pele morena tostada pelo sol. Um único olhar e aqueles dois universos enfim se confortaram.
– Parrot flower...
– Por favor, não sei falar essa língua ‘’dos’’ estrangeiro moça...
– Não me perguntou que fragrância é essa? –Diz a cigana em Romani, ao borrifar o perfume nas mãos do pescador.
– Na minha língua, por favor, moça!
– A flor papagaio é uma orquídea rara, uma das mais belas, e raras flores do mundo, que cresce no norte da Tailândia. – Diz a cigana, ao pegar na mão do Negro Acácio e borrifar o perfume no pulso, novamente. Os olhos negros de Acácio confrontam os olhos claros da jovem, a pele alva de cigana era um contraponto a cor de ébano que reluzia ao sol do pescador.
Era a primeira vez que se falavam, mas parecia que se conheciam há muito tempo. Tempos distantes, um tempo além da própria consciência do tempo, um tempo para além do próprio tempo. E um prelúdio de uma tragédia também era sentido no ar, por alguns. Os mais velhos, principalmente, sentiam o cheiro de tragédia no ar. Aqueles dois universos, distintos, pareciam destinados à tragédia. Pelo menos era assim que algumas pessoas que viviam por alguns anos a mais nessa terra sentiam.
Samuel Costa Contista em Itajaí